26/01/2016

A água benta é uma superstição? - RC239

A água benta é uma superstição? Veja, algumas pessoas que não conhecem a teologia católica acham, com uma certa razoabilidade, que a água benta, como outros sacramentais, são uma espécie de superstição, ou seja, atribuir um valor mágico a um objeto. A Igreja não crê que as coisas sejam assim. Mas, por que é que a água benta, em última análise, não é uma superstição? Bom, pra gente entender como é que funciona a água benta, nós temos que entender como é que funcionam os sacramentos. Os sacramentos são sinais eficazes instituídos por Jesus.

Então, aqui, nós temos duas características fundamentais para os sacramentos: foram instituídos por Jesus e eles têm uma eficácia que é automática, ex opere operato, ou seja, infalível. Os sacramentos geram a graça santificante em nós. Bom, mas isso não quer dizer que essa graça santificante produza os frutos em nós se nós não estivermos preparados, predispostos, abertos para receber essa graça e é aqui que entram os sacramentais. O próprio Santo Tomás de Aquino nos fala na sua Suma Teológica, quando ele diz assim: "Os sacramentais não levam ao efeito do sacramento, que é a obtenção da graça, mas dispõe para os sacramentos."

E como é que são essas disposições para os sacramentos? Pode ser uma coisa positiva ou uma coisa negativa. De forma positiva, eles fazem o seguinte, eles "tornam objetos dignos da recepção dos sacramentos", como por exemplo, os vasos sagrados, você vai lá e abençoa a patena, o cálice, etc, a casula que o padre vai usar, por quê? Porque afinal das contas quando Jesus instituiu os sacramentos, Ele não instituiu os sacramentos nos mínimos detalhes. Os detalhes foram instituídos depois pela Igreja, por exemplo, aquela gota de água que a gente acrescenta no vinho na hora do ofertório, aquilo não foi instituído por Jesus. Foi uma coisa que a Igreja acrescentou.

Então, esses acréscimos, essas coisas da Igreja são também, de alguma forma, algo que são acrescentados aos sacramentos e, no caso aqui dos sacramentais, os vasos sagrados, que são coisas positivas. Mas existem também aquelas preparações para os sacramentos que é tirar os empecilhos, tirar as coisas que nos impedem de ter o fruto dos sacramentos.

É o caso exatamente da água benta. Santo Tomás diz assim que os "sacramentais podem remover o que impede a obtenção da graça", ou seja, como água benta, "que se dirige contra as insídias do demônio e contra os pecados veniais". Então, para a gente entender realmente como é que funciona a água benta nós temos que olhar para essas duas realidades: insídias do demônio e pecados veniais. Vamos então para a primeira coisa: as insídias do demônio.

Também Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica nos esclarece. Ele diz assim: "Os assaltos do demônio podem ser provenientes do interior ou do exterior". Os assaltos que acontecem desde o interior, existe um sacramental próprio para eles, que é o exorcismo. Os assaltos que vêm do exterior, nós temos um sacramental da água benta. Então é assim que nós podemos realmente usar a água benta para esses assaltos exteriores do demônio.

Mas o que é mais impressionante com relação à água benta, não é tanto essa questão dos assaltos dos demônios que, de fato, é bastante eficaz. A própria Santa Teresa D´Ávila, no seu Livro da Vida fala da eficácia que ela encontra no fato de que todas as vezes que ela usou água benta ela se livrou dessas insídias do demônio. Mas o mais bonito e interessante é quando se fala dos pecados veniais. A Suma Teológica também nos fala do que é que nós podemos fazer para nos livrar dos pecados veniais.

Bom, a gente pode, em primeiro lugar, também receber os sacramentos porque na própria Eucaristia, se nós recebermos a Eucaristia de forma realmente devota, aquilo já elimina os pecados veniais, mas, na realidade, nós podemos nos preparar para isso, como? Através da água benta. Por quê? Porque a água benta, como outros sacramentais, despertam um movimento de respeito em relação a Deus e às coisas divinas e isto, ou seja, quando nós nos aproximamos de Deus e da realidade divina, a água benta causa em nós um fervor interior, então, ela de fato, nos livra dos pecados veniais. Aqui é importante a gente notar uma coisa: existe uma forma da gente se livrar os pecados veniais, que é simplesmente um ato de pedir perdão.

Se eu rezo o Pai Nosso com grande fervor, os meus pecados veniais são perdoados, mas nem todos os atos de fervor são sacramentais, é evidente. Senão qualquer oração que eu fizesse privadamente já seria um sacramental. É que embora a eficácia da água benta exija um ato interior meu de fervor, ela tem junto uma oração da Igreja. E essa oração da Igreja é que dá a eficácia maior ao meu ato de fervor. Então, quando nós usamos os sacramentais nós sabemos que nós estamos recebendo uma bênção especial da Igreja, no caso aqui, muito especificamente para lutar contra os assaltos do demônio e para nos livrar dos pecados veniais.


Texto acima: Transcrição do vídeo.


Texto do site abaixo:


Para quem não conhece a teologia católica, a água benta pode parecer, com certa razoabilidade, uma espécie de superstição. Afinal, qual o sentido de que uma pessoa fique se aspergindo com um punhado de água? Não existe outra forma de ser abençoado por Deus, ao invés de ficar "atribuindo poderes mágicos" a seres inanimados?

A resposta católica para essa questão encontra-se no sadio equilíbrio da "economia sacramental". A Santa Igreja, no decorrer dos séculos, sempre ensinou aos seus filhos o apreço das coisas sensíveis, sob o risco de que se obscurecessem os próprios mistérios de nossa redenção. O Verbo, para descer ao mundo, não rejeitou "vir na carne" e tomar uma forma verdadeiramente humana (cf. 1 Jo4, 2); não desprezou o matrimônio (cf. Mt 19, 3-9; Jo 2, 1-11), nem se furtou de tomar alimentos para conservação de seu corpo físico (cf. Mt 11, 19; Jo 21, 9-14); ao instituir os sacramentos, foi além e transformou realidades visíveis, como a água, o pão e o vinho, em verdadeiros instrumentos de salvação, de onde Ele dizer, por exemplo, que "se alguém não nascer da água e do Espírito, não poderá entrar no Reino de Deus" (Jo 3, 5), ou mesmo: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós" (Jo 6, 51. 53).

O respeito dos católicos pelas coisas materiais, portanto, foi aprendido do próprio Jesus, o qual, para salvar o ser humano inteiro – corpo e alma –, quis sabiamente distribuir a Sua graça invisível através de instrumentos tangíveis e perceptíveis aos olhos humanos. "Oportet nos per aliqua sensibilia signa in spiritualia devenire – Convém que por sinais sensíveis cheguemos às realidades espirituais" (S. Th., III, q. 61, a. 4, ad 1), diz Santo Tomás de Aquino.

Para investigar como a água benta se insere nessa economia, é preciso entender como os sacramentos atuam na vida dos cristãos. Embora estes realizem o seu efeito, que é a graça, ex opere operato (ou seja, automaticamente), os fiéis colhem frutos na medida em que se dispõem interiormente para recebê-los. Assim, por exemplo, quem se arrepende de seus pecados e é absolvido pelo sacerdote na Confissão, certamente recebe a graça santificante; mas aquele que teve uma contrição maior receberá uma porção de graça também maior. Quem se aproxima dignamente da Eucaristia, do mesmo modo, certamente recebe a graça do Cristo, mas, quanto mais devotamente comungar, tanto maior será o seu grau de comunhão com Deus.

Os chamados "sacramentais" – dos quais a água benta é um tipo –, embora não levem ao efeito do sacramento, que é a obtenção da graça, agem dispondo a pessoa para a sua recepção. A água benta, por exemplo, explica o Doutor Angélico, atua de modo negativo, dirigindo-se (1) "contra as insídias do demônio e (2) contra os pecados veniais" (cf. S. Th., III, q. 65, a. 1, ad 6).

Primeiro, portanto, a água benta funciona como um "exorcismo", com a diferença de que este é aplicado contra a ação demoníaca desde dentro, enquanto "a água benta é dada contra os assaltos dos demônios que vêm do exterior" (S. Th., III, q. 71, a. 2, ad 3). Para este fim específico, trata-se de um instrumento verdadeiramente eficaz, amplamente comprovado pelo uso dos santos. Santa Teresa d'Ávila, por exemplo, recomendava a suas irmãs que nunca andassem sem água benta e que se servissem dela com frequência. "Vocês não imaginam o alívio que se sente quando se tem água benta", ela dizia. "É um grande bem fruir com tanta facilidade do sangue de Cristo" [1].

Segundo, quanto aos pecados veniais, a água benta age enquanto "desperta um movimento de respeito em relação a Deus e às coisas divinas" (S. Th., III, q. 87, a. 3). Diferentemente de outras práticas devotas que, realizadas com fervor, também apagam as faltas veniais – como a oração do Pai-Nosso ou um ato de contrição –, a água benta traz consigo o poder da bênção sacerdotal, o que dá maior eficácia ao seu uso.

A água benta não se trata, portanto, de uma superstição, mas de um recurso extremamente útil e piedoso para quem quer se santificar através da oração da Igreja. O Catecismo da Igreja Católica adverte que "atribuir só à materialidade das orações ou aos sinais sacramentais a respectiva eficácia, independentemente das disposições interiores que exigem, é cair na superstição" (§ 2111). Por isso, acompanhado da aspersão da água benta deve sempre ir um grau cada vez maior de fervor a Deus, sem o qual qualquer prática religiosa, por mais piedosa que seja, perde o seu sentido último.

Referências

  • Escritos de Teresa de Ávila. São Paulo: Loyola, 2001, p. 205, nota 2.

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Espelho completo e corrigido do link com os textos, áudio transcritos, bibliografias e referências:
https://padrepauloricardo.org/episodios/a-agua-benta-e-uma-supersticao