05/09/2016

231. Qual a missão dos anjos da guarda?

Qual é a missão dos nossos santos anjos da guarda?
Antes de responder essa pergunta, acho que tem que ficar bem claro para as pessoas que a fé da Igreja nos diz que nós temos anjos da guarda e isso é inquestionável porque o Catecismo no número 336, nos diz isso. Mas, o Catecismo usa como argumento o próprio dado bíblico, nós temos no Evangelho de São Mateus, capítulo 18, uma realidade irrefutável, Jesus diz assim: "Cuidado não escandalizar os pequeninos, porque os seus anjos no céu contemplam sem cessar a face do meu Pai que está nos céus". Ora, Jesus não iria se equivocar sobre matéria tão importante, tão delicada.
É algo tranquilo na vida da Igreja, nós podemos atestar a presença dos anjos na vida de tantos, tantos, tantos santos. A biografia dos santos é uma enciclopédia da ação angélica. Para citar um exemplo que está na própria bíblia, a gente pode pegar aqui os Atos dos Apóstolos, no capítulo 12. Herodes viu que estava agradando os fariseus quando começou a perseguir a Igreja e mandou matar São Tiago. Mandou prender Pedro e Pedro, no meio da noite, foi solto. Por quem? Por um anjo.
Quando Pedro se apresenta na porta da comunidade, bate à porta e diz que quer entrar, a empregada, de nome Rosa ouve São Pedro e diz - fica tão alegre que esquece de abrir a porta e vai lá avisar para o pessoal: 'Pedro está aí na porta". Qual é a reação das pessoas? Eles dizem assim, Capítulo 12, versículo 15: "Estás louca! Disseram-lhe, mas ela insistia, disseram então: "É o seu anjo..." Interessante isso, já que Pedro está preso e quem está lá fora tem a mesma voz de Pedro então deve ser o anjo dele.
Para a comunidade cristã, a existência de um anjo pessoal, para cada pessoa, é uma realidade óbvia. Então, vamos lá, vamos passar a limpo o que é que nós realmente cremos a respeito dos anjos da guarda.
Para apresentar isso e apresentar essa missão deles, eu gostaria de partir de uma frase que está no Catecismo da Igreja Católica, é uma frase de São Basílio Magno. O Catecismo diz assim, sempre no número 336: "Cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à vida." Então é evidente aqui que são Basílio está usando a palavra "zoé", não conduzido à vida aqui - bios - mas é a zoé, a vida eterna. Então, o anjo vai me conduzir para lá, me proteger, e como um pastor, vai me pastorear.
É iimportante nós compreendermos isso. Os nossos anjos querem nos levar para o céu. Isso não há dúvida. Eles desejam isso. E esta é a missão deles. Os anjos já estão lá no céu, felizes da vida, contemplando Deus face a face. Mas ao mesmo tempo, eles receberam uma missão, aqui na terra, que é nos conduzir para lá. Então, isso é de fundamental importância para entendermos a missão dos anjos, porque a pessoas acham que os anjos estão aí somente para ajudar criancinhas a atravessar rua. E às vezes acontece uma desgraça, um problema, uma criança pequenina morre e todo mundo fica dizendo: "Ah, mas se existissem anjos da guarda, eles iam evitar toda essa desgraça", mas não. Aqui nós precisamos de uma visão espiritual. O foco é a salvação eterna.
Outro dia, aqui na nossa região, faleceu uma criança, inocente, de 04 meses, mas ela era batizada. É claro que a mãe ficou muito amargurada com esta morte, toda mãe ficaria e, aliás, nós também ficamos, mas o que acontece é que se nós pensarmos espiritualmente, puxa vida, essa criança já está no céu, ela não tem nem purgatório porque é uma criança recém-batizada, não teve pecados pessoais, então, na verdade, ela já está intercedendo por nós, está numa situação muito melhor que a nossa. Evidente que Deus não quer a nossa morte, mas uma vez que ela acontece, nós devemos fazer como fazem os nossos santos anjos.
E como é que nossos anjos reagem diante dos males da nossa vida, ou seja, de um acidente, um pecado ou até diante da perdição de uma alma que vai para o inferno? Santo Tomás de Aquino, na sua Suma Teológica, tem uma questão inteira sobre os anjos da guarda, a questão número 113. E numa dessas questões, ele diz assim, o artigo 7: "Sofre, o anjo, quando acontece algum mal com aquele que ele devia guardar?" A resposta de Santo Tomás é estranha, ele diz: "Não, os anjos não sofrem." E por que não sofrem? A resposta dele é sábia, "porque eles tentam fazer de tudo para que aquela pessoa não sofra, não peque e não pereça. Mas, uma vez que uma dessas realidades acontece eles inclinam a cabeça e adoram o desígnio divino, a vontade de Deus que permitiu essas coisas.
Então, isso daqui também é uma coisa interessante pra nós que sofremos. Porque Santo Tomás de Aquino cita uma frase de Santo Agostinho em que Santo Agostinho diz com toda clareza que "o sofrimento, tristeza e dor resultam do que contraria a vontade". Então, eu vou sofrer se tem alguma coisa contrariando a minha vontade. Mas se aquela coisa não está contrariando a minha vontade eu não tenho porque sofrer. Ora, o anjo recebeu o desígnio de me salvar, mas se depois ele vê o fato, ele não tem mais porque ficar batendo a cabeça contra uma parede, de um fato real.
Santo Tomás cita um exemplo, vamos supor, sujeito é um mercador que tem um navio. É evidente, ele está lá levando a mercadoria dele para ser vendida em outro lugar, então ele não quer que aquela mercadoria caia no mar. Mas se acontece uma tempestade e para salvar o navio ele tiver que jogar a mercadoria no mar, ele quer. Não é isso? Então, de uma forma geral, ele não quer jogar a mercadoria no mar, mas naquela circunstância, ele abraça aquilo e quer. Ora, isso não provoca sofrimento a ele, por quê? Porque ele quer realmente jogar a mercadoria no mar.
Assim são os anjos. Os anjos querem a nossa salvação. Lutam pela nossa salvação. Assim eles agem. Como é que eles agem? Eles nos inspiram, eles nos iluminam, eles agem, nos dando sinais, usando a nossa imaginação, lutando contra o demônio, e Deus pode até permitir que eles realizem milagres para a nossa salvação. Por isso eles são instrumentos de Deus para a nossa salvação.
São instrumentos santos, ou seja, eles têm uma vontade que está em perfeita sintonia com a vontade de Deus. Santo Tomás nos recorda que quando um instrumento é inteligente e livre, ele recebe o nome de "ministério", ou seja, se eu sou um lápis e lápis não é um ministro, mas se eu sou inteligente e livre e uso a minha inteligência e disponho a minha vontade para servir a Deus e para servir como instrumento Dele, então eu sou um ministro de Deus. A missão dos anjos é essa: os anjos são ministros de Deus que estão aí para nos servir.
São João Bosco nos recorda que os nossos anjos da guarda querem nos ajudar muito mais do que nós desejamos ajuda deles. O desejo que eles têm de nos ajudar, nos salvar, nos conduzir para Deus é muito, muito maior do que a nossa vontade de sermos protegidos, guiados e conduzidos até o céu. Por isso não é dificuldade, não há dificuldade nenhuma em nós pedirmos ajuda de nossos anjos. Não precisamos convencê-los, só precisamos nos abrir à sua ação.


Texto acima transcrito do vídeo.





Texto no site:


Os anjos da guarda não foram colocados ao nosso lado apenas para proteger-nos de acidentes ou desastres físicos. A sua missão na Terra é muito maior do que comumente se imagina.
O que a Igreja ensina a respeito dessas criaturas? Elas realmente existem? Como se comportam em relação à vontade de Deus e em relação a nós? Descubra, neste episódio do programa "A Resposta Católica", qual a missão dos nossos anjos protetores.
A Igreja sempre acreditou na existência dos santos anjos da guarda, a partir do testemunho das próprias Sagradas Escrituras. Nosso Senhor, por exemplo, ao pedir que não se escandalizassem os pequeninos, disse que "os seus anjos, no céu, contemplam sem cessar a face do meu Pai que está nos céus" [1]. Em um episódio relatado nos Atos dos Apóstolos, a comunidade cristã, que rezava por São Pedro enquanto ele era mantido na prisão, confundiu a sua presença com a de seu anjo [2]. Por fim, o Catecismo da Igreja Católica ensina que "cada fiel é ladeado por um anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à vida [zoé]" [3].
A partir desta citação de São Basílio Magno, fica bem evidente que a missão dos anjos da guarda é "conduzir à vida", ao Céu, os seres humanos. Mesmo já contemplando a Deus face a face, eles receberam na Terra a missão de levar os homens à Pátria Celeste. O seu ofício não é, pois, uma simples "proteção física", como se os anjos existissem tão somente para ajudar criancinhas a atravessarem a rua. Trata-se de uma missão eminentemente espiritual, cujo foco é a salvação eterna das almas – mesmo que, para isso, se passe por sofrimentos, doenças ou tragédias.
Santo Tomás de Aquino, ao questionar se "os anjos sofrem pelos males dos que guardam", responde:
"Os anjos não sofrem nem pelos pecados, nem pelas penas dos homens. No dizer de Agostinho, tristeza e dor resultam do que contraria a vontade. Ora, nada acontece no mundo que contrarie a vontade dos anjos e dos demais bem-aventurados, porque suas vontades aderem perfeitamente à ordem da divina justiça. Com efeito, nada acontece no mundo que não seja feito ou permitido pela justiça divina. Portanto, absolutamente falando, nada acontece no mundo que contrarie a vontade dos bem-aventurados. Todavia, o Filósofo diz no livro III da Ética, que se diz voluntário de modo absoluto aquilo que alguém quer em particular quando age, isto é, consideradas todas as circunstâncias, embora considerado em geral fosse voluntário. Por exemplo, o navegante que não quer de modo absoluto e em geral atirar as mercadorias ao mar, mas que, na iminência de um perigo de vida, o quer. Um gesto assim é mais voluntário que involuntário como aí mesmo se diz. Assim os anjos, falando de modo geral e absoluto, não querem que os homens pequem e sofram. Mas querem que a respeito disso seja guardada a ordem da justiça divina segundo a qual alguns são sujeitos a penas, sendo-lhes permitido pecar" [4]
Então, os anjos da guarda querem e lutam pela salvação dos homens – inspirando-os, iluminando-os e, às vezes, até realizando milagres e lutando contra os próprios demônios. Como são instrumentos santos que possuem inteligência e são livres, eles são chamados de "ministros", pois foram colocados por Deus ao nosso serviço.
São João Bosco, ao recomendar a invocação ao anjo da guarda na hora das tentações, dizia que "ele deseja ajudar você mais do que você deseja ser ajudado por ele". Por isso, não deve haver dificuldade alguma em pedir o auxílio dos nossos santos anjos: não precisamos convencê-los, mas apenas abrir-nos à sua ação.

Referências


  1. Mt 18, 10
  2. Cf. At 12, 6-15
  3. Catecismo da Igreja Católica, 336
  4. Suma Teológica, I, q. 113, a. 7

Espelho completo e corrigido do link com os textos, áudio transcritos, bibliografias e referências:
https://padrepauloricardo.org/episodios/qual-a-missao-dos-anjos-da-guarda