03/09/2016

238. O inferno existe?

O inferno existe? Bom, essa pergunta que pode parecer trivial para um católico, praticante, crente, tornou-se um verdadeiro questionamento nos últimos tempos, questionamento feito por teólogos e por muitos pregadores que acham que não é oportuno se falar de inferno.
Pois bem, então, precisamos logo de início colocar duas coisas muito claras: primeiro, é que o inferno existe, ou seja, isso para nós é um dado revelado inquestionável, basta ler o Catecismo da Igreja Católica, no número 1033, ali você vai ver a quantidade de passagens bíblicas, de documentos pontifícios, de declarações do Magistério. Não há dúvida, o inferno existe e se você acha que ele não existe você está se afastando da fé católica.
Essa é a primeira coisa que precisa ser muito clara para nós. A segunda coisa, é que o inferno, embora ele exista, ele não foi criado por Deus, ou seja, Deus criou o céu para nós, mas o inferno, na realidade, é uma invenção de Satanás e seus anjos e existem seres humanos que são capazes sim, com a sua liberdade, de optar e ir para o inferno.
Vejam, o Papa Bento XVI em sua encíclica "Spe salvi", coloca no número 40, essa realidade de que, de fato, os eventos históricos dos últimos tempos e aqui a gente inevitavelmente a gente pensa em Hitler, Stálin, em Mao Tse-Tung e os campos de extermínio, os eventos históricos recentes nos mostram que existem pessoas que têm o coração capaz de se fechar para a Verdade, para a Bondade e para o Amor. Não é uma hipótese, é uma constatação histórica. Isso é real. O ser humano é capaz disso, o ser humano é capaz de se fechar para Deus.
Diante dessas realidades enormes, inegáveis, nós começamos a olhar para o nosso próprio coração e ver que nós somos também capazes disso. Nós somos capazes de nos fechar para o amor, aliás, é interessante notar que as pessoas que negam a existência do inferno são exatamente as pessoas que cometem as maiores atrocidades, ou seja, tornam-se homens para além do bem e do mal, porque, afinal, se o inferno não existe, se não existe castigo, tudo me é permitido.
O Papa Bento XVI cita o protesto de Dostoiévsk, em "Os Irmãos Karamazov", em que ele diz: "Como é possível que depois, no céu, vítimas e algozes sentem à mesma mesa para desfrutar do banquete celeste?" Como é possível que Deus agora passe uma esponja e apague tudo que aconteceu na história? Ou seja, um carnífice que matou milhões de pessoas estará lá no céu, na glória eterna, na felicidade, junto com as vítimas que ele mesmo matou. Ora, isso seria dizer que esta vida, que esta existência não é séria, que esta vida é só uma brincadeira e que, no fim, Deus tem uma profunda indiferença diante disso tudo. Ora, nós sabemos, nos diz São Bernardo de Claraval, que Deus é impassível, mas ele não é incompassível, ou seja, Deus não sofre, mas ele tem compaixão. É o Deus da compaixão que nos leva exatamente a compreender que o inferno é uma possibilidade.
Bom, se é assim, então, vem a pergunta: mas será que é oportuno ainda para o homem moderno pregar a respeito do inferno? Será que não é uma verdade sim, mas que seria melhor deixar de lado porque isso assusta as pessoas? Bom, um pouco disso já respondemos: quem não crê no inferno faz as piores coisas. O segundo, como vamos questionar a pedagogia do próprio Deus? Deus, por exemplo, falou do inferno e continuou falando do inferno ao longo da história e através dos seus santos, os santos que receberam o dom místico de ver o inferno, por exemplo, Nossa Senhora, que é uma grande pedagoga, é uma mãe, ela não ia assustar os seus filhos, ainda mais criancinhas, no entanto, Nossa Senhora, em Fátima, mostrou o inferno a três crianças. Por que ela fez isso? Porque queria que essas crianças amassem a Deus. Sim, a própria Lucia diz que nada santificou mais os meus primos, Francisco e Jacinta, do que a visão do inferno. Porque a partir da visão do inferno eles foram tomados, incendiados por uma imensa caridade. Sim, é isso mesmo, caridade. Uma caridade para com Deus porque queriam agora fazer orações e penitências para reparar, então aqui a gente vê que não era um temor servil, de quem tem medo do inferno simplesmente, mas um temos filial de quem não quer ofender o seu pai querido.
E a segunda realidade da caridade, a caridade pelos pecadores de ver tantas almas perecerem no fogo eterno, de tal forma que eles queriam agora fazer orações, súplicas e penitências para salvar as almas. Essa realidade que viveram os 3 pastorinhos de Fátima no nosso tempo, a menos de 100 atrás, e atestada por outros santos, como, por exemplo, Santa Teresa d´Ávila, 500 anos atrás quando ela escreveu a sua "Vida", no capítulo 32, ela recorda que ela teve a graça de ver o inferno. Sim, é isso mesmo, a graça. Ela diz assim: "Por isso, repito ter sido essa uma das maiores graças que o Senhor me concedeu", embora ela, ao narrar a sua visão do inferno diga que 6 anos passados, ao recordar aquela realidade, ela ainda sofria física e espiritualmente, ela fala do grande amor, do amor para com Deus que surge a partir dessa visão do inferno de não querer perder este amor de Deus e o amor para com as almas de querer dar mil vidas, se preciso fosse, para que ninguém padecesse, nenhuma alma sequer, se perdesse no fogo eterno. Aqui, nós vemos a grandeza de uma Santa Teresa e de tantos santos que viveram e vivem no serviço a Deus constante, onde a caridade é a razão que os leva a falar do inferno.
Nos nossos tempos, um teólogo chamado Hans Urs von Balthasar aventou uma hipótese de que sim, tudo bem, o inferno existe, mas o inferno é somente uma possibilidade e que, na realidade, os verdadeiros cristãos precisariam ter a esperança de que ninguém fosse ao inferno. Bom, nós poderíamos dizer que, na realidade, se nós formos falar de hipótese, nós temos que falar de hipóteses baseadas no mundo real e a Tradição da Igreja nos fala claramente de que é verdade, existem pessoas que já foram condenadas ao inferno e que o inferno, portanto, não é um lugar vazio, não é uma hipótese, em primeiro lugar porque Satanás e os anjos já estão lá e, em segundo lugar, porque os evangelhos nos falam com clareza da realidade da condenação, vejam por exemplo, o Concílio Vaticano II, quando em aula conciliar se pôs em discussão a realidade do inferno, um dos padres pediu à comissão que colocasse uma declaração que, de fato, algumas pessoas foram condenadas ao inferno e a resposta da comissão, portanto, a interpretação oficial do Vaticano II é que isso não era necessário, por quê? Porque isso se deduzia das palavras de Nosso Senhor que dizia: "Irão para o fogo eterno" e essa afirmação taxativa de Cristo diz e supõe que alguém irá.
Pois bem, aqui nós vemos o quanto a Igreja, Mãe e Mestra quer que nós estejamos arragaidos na sua doutrina e nós, pregadores, devemos falar sim do inferno, não porque queremos fazer terrorismo espiritual, mas exatamente o contrário: porque o amor não pode ser levado a sério se nós não tivermos uma verdadeira repulsa da possibilidade de nós virarmos as costas para o amor e fazermos do egoísmo um projeto de vida.
Texto acima transcrito do vídeo.

Texto no site:


O inferno existe? Esta pergunta, aparentemente trivial para um católico praticante, tornou-se discurso comum na boca de muitos teólogos e pregadores que, ora tratam o tema com desdém, ora o consideram inoportuno para o homem moderno.


Antes de qualquer consideração, porém, é preciso que fiquem claras duas coisas:


(I) A partir das Sagradas Escrituras e da Tradição, bem como de inúmeras declarações do Magistério da Igreja, não resta dúvida de que o inferno existe [1] – e não acreditar neste dado revelado é afastar-se da fé católica;
(II) Embora exista, o inferno não é criação de Deus, mas uma invenção diabólica, realidade na qual podem adentrar também os seres humanos, com a sua liberdade.
Na encíclica Spe Salvi, o Papa Bento XVI faz alusão a recentes episódios da história do mundo em que ficou evidente como o uso abusivo da liberdade pode levar, já neste mundo, a uma opção irremediável pelo mal:


"Pode haver pessoas que destruíram totalmente em si próprias o desejo da verdade e a disponibilidade para o amor; pessoas nas quais tudo se tornou mentira; pessoas que viveram para o ódio e espezinharam o amor em si mesmas. Trata-se de uma perspectiva terrível, mas algumas figuras da nossa mesma história deixam entrever, de forma assustadora, perfis deste gênero. Em tais indivíduos, não haveria nada de remediável e a destruição do bem seria irrevogável: é já isto que se indica com a palavra inferno." [2]
O inferno não se trata, pois, de uma hipótese teológica, mas de uma constatação histórica, cuja possibilidade se torna bem concreta, se o ser humano olhar com sinceridade para o próprio coração. Fatalmente, a criatura pode sim afastar-se de seu Criador.
Na verdade, são justamente as pessoas que deixam de crer no inferno as que terminam cometendo, por causa disso, as maiores atrocidades. Como não há castigo para si, como estão elas "para além do bem e do mal", tudo parece ser-lhes permitido.
Mas, na expressão de São Bernardo de Claraval, "impassibilis est Deus, sed non incompassibilis – Deus é impassível, mas não incompassível" [3]: embora não possa padecer, Deus Se compadece dos fracos e oprimidos neste mundo. A Sua graça, adverte o Papa Bento XVI, "não exclui a justiça", nem "muda a injustiça em direito":
"Não é uma esponja que apaga tudo, de modo que tudo quanto se fez na terra termine por ter o mesmo valor. Contra um céu e uma graça deste tipo protestou com razão, por exemplo, Dostoiévski no seu romance 'Os irmãos Karamázov'. No fim, no banquete eterno, não se sentarão à mesa indistintamente os malvados junto com as vítimas, como se nada tivesse acontecido." [4]
Mesmo diante de tudo isso – pergunta-se –, será ainda conveniente falar sobre o inferno ao homem de hoje? Não seria melhor deixar de lado essa doutrina?
A pedagogia divina, expressa na vida dos santos e místicos da Igreja, deixa entrever que não. Santa Teresa de Ávila relata, em sua autobiografia, como a visão que teve do inferno foi "uma das maiores graças" que o Senhor lhe concedeu [5]. Tal fato fê-la inflamar-se de tal amor por Nosso Senhor que – diz ela em seu Caminho de Perfeição [6] – estaria disposta a dar mil vidas pela salvação de uma só das almas que se precipitavam no abismo eterno.
Em 1917, em Portugal, Nossa Senhora também não hesitou em mostrar o inferno aos pastorinhos de Fátima. "Algumas pessoas, mesmo piedosas – diz a Irmã Lúcia em suas memórias [7] –, não querem falar às crianças do inferno, para não as assustar; mas Deus não hesitou em mostrá-lo a três crianças, e uma de 6 anos apenas, a qual Ele sabia que se havia de horrorizar a ponto de, quase me atrevia a dizer, definhar-se de susto". Mas, por que permitiu Deus que aquelas crianças tivessem diante de si uma realidade tão aterradora? A resposta está em que Ele queria excitar-lhes o temor: não o temor servil, de um escravo, mas o temor filial, de filhos. De fato, depois de contemplarem o inferno, Francisco, Jacinta e Lúcia foram incendiados por um grande amor a Deus e começaram a fazer inúmeras penitências e orações para salvar as almas da condenação eterna.
Mais recentemente, o teólogo Hans Urs von Balthasar aventou a possibilidade de que, embora existisse, o inferno talvez estivesse vazio (l'inferno vuoto). A Tradição da Igreja, no entanto, não pode corroborar esse pensamento: (I) porque Satanás e os anjos rebeldes já estão no inferno [8]; (II) porque Cristo, ao encerrar o seu "sermão escatológico", não deixa dúvidas quando diz que os maus "irão para o castigo eterno" (Mt 25, 46).
Permanecer na fé da Igreja, portanto, é o caminho seguro. Que os pregadores da Palavra voltem a falar do inferno, não para aterrorizar as pessoas, mas para fazê-las crescer no amor. A caridade não pode ser levada a sério se não se tem uma verdadeira repulsa pelo mal e pelo eterno afastamento do Sumo Bem, que é Deus.


Referências
  1. Cf. Catecismo da Igreja Católica, 1033.
  2. Sermones in Cantica Canticorum, 26, 5 (PL 183, 906).
  3. Livro da Vida, 32, 4.
  4. Cf. Caminho de Perfeição, 1, 2; Livro da Vida, 32, 6.
  5. ALONSO, Joaquín María; KONDOR, Luigi; CRISTINO, Luciano Coelho. Memórias da Irmã Lúcia. 13. ed. Fátima, 2007, p. 123.
  6. Cf. Papa João Paulo II, Audiência Geral (28 de julho de 1999), n. 4.

Espelho completo e corrigido do link com os textos, áudio transcritos, bibliografias e referências: (Vídeo no fim do post)
https://padrepauloricardo.org/episodios/o-inferno-existe