15/09/2016

327. Memória de Nossa Senhora das Dores

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Meus queridos irmãos e irmãs, celebramos hoje a memória de Nossa Senhora das Dores e é uma dessas memórias litúrgicas que possui uma belíssima sequência preparando o evangelho, a Stabat Mater. A Stabat Mater é uma sequência, uma poesia litúrgica, que foi composta durante a Idade Média, não se sabe exatamente quem é o autor, uns dizem que foi Jacopone da Todi, um franciscano, outros que foi Inocêncio III, Papa, mas seja como for, o que se tenta transmitir no Stabat Mater é a realidade do sacrifício da Virgem Maria unido ao sacrifício do Seu Filho Jesus na Cruz.

O Evangelho de hoje é exatamente o evangelho que nos mostra essa realidade quando aos pés da Cruz Jesus nos entrega a Sua Mãe, João capítulo IX. Mas eu gostaria aqui de explorar exatamente a verdade desta união de sacrifício, ou seja, como é que Maria pode ser chamada, como de fato é chamada, por alguns teólogos de Co-redentora. Se você for olhar para a teologia da Igreja nos primeiríssimos séculos, você vai notar que existe um paralelo entre a Virgem Maria e Eva, e isso é algo que pode ser traçado até a origem apostólica, ou seja, estamos falando aqui de algo que a Igreja crê desde a época dos apóstolos, Maria é a nova Eva, assim como Cristo é o novo Adão.

Mas o que foi que aconteceu com Eva? Eva, pela desobediência não quis sacrificar, quis tomar para si o fruto. Havia uma árvore, um fruto e a desobediência. Muitos séculos depois nós temos uma nova árvore, a árvore da Cruz, um fruto, o fruto do Seu ventre Jesus e Ela obediente sacrifica e entrega o seu sacrifício da fé. É por isso que Maria é chamada de Co-redentora, ou seja, a nova Eva, como a perdição entrou no mundo por Eva, a salvação entrou no mundo por Maria e Maria esteve associada ao Seu Filho, aos pés da Cruz, oferecendo o seu sacrifício.

Algumas pessoas podem dizer, "Mas, Padre, o sacrifício de Cristo já foi perfeito, não precisa absolutamente acrescentar nada a ele". Sim, o sacrifício de Cristo foi perfeito, mas houve uma coisa que Jesus não pôde oferecer na Cruz: Ele não pôde oferecer um sacrifício de fé, porque sendo Deus, o Cristo não tem fé, não da forma como nós a temos. Então havia necessidade de que houvesse o sacrifício perfeitíssimo da fé perfeitíssima e esse sacrifício foi oferecido pela Virgem Maria. Sendo assim, ontem nós celebrávamos a exaltação da Santa Cruz, vimos que para receber a salvação da Cruz precisamos de fé. Deus deu Seu Filho para que todo que Nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

Ontem vimos Deus que dava o Seu Filho, hoje vemos o Filho que dá a Sua Mãe, para quê? Para que a exemplo da sua fé, unidos à sua fé e recebendo dela a fé, nós possamos nos unir ao sacrifício de Cristo na Cruz. Não será possível sermos se não tivermos esta fé que recebe o amor. Precisamos crer nesse amor crucificado por nós.

A fé de Maria, a fé da co-redentora é para nós um grande impulso sim, como todas as vezes que professamos a fé, professamos em pé podemos dizer: Stabat Mater, sim, a Mãe estava de pé oferecendo o seu sacrifício, a sua profissão de fé, a sua fé crendo, quando ninguém mais cria, abriu as portas da salvação para este mundo.

Deus abençoe você.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.


Acima, texto transcrito do vídeo:


Abaixo, texto do site:

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

(Jo 19, 25-27)


Naquele tempo, perto da cruz de Jesus, estavam de pé a sua mãe, a irmã da sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: "Mulher, este é o teu filho". Depois disse ao discípulo: "Esta é a tua mãe". Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo.

A memória de Nossa Senhora das Dores, em cuja celebração a Igreja, antes de proclamar o Evangelho, canta o hino Stabat Mater, vem reforçar-nos a fé na íntima união de Maria Santíssima com o sacrifício vicário de seu Filho na cruz: ela, entregando-O de volta ao Pai, é por Cristo entregue a João e, assim, a todos os fiéis cristãos. "Mulher", diz o Senhor, "este é o teu filho"; e depois disse ao discípulo: "Esta é a tua mãe". Por ocasião desta memória, portanto, vale a pena recordarmos os motivos por que a Igreja Católica, preservando incorrupta e inalterada a fé apostólica, não teme chamar à bem-aventurada Virgem corredentora do gênero humano.

Para isso, temos de retroceder aos princípios da humanidade e contemplar aquela que, embora seja a mãe de todos os viventes, foi para eles causa de morte e perdição. Em Eva, com efeito, três coisas podem notar-se: em primeiro lugar, a antiga árvore; em segundo, o fruto proibido; por fim, a desobediência à ordem divina. Fechando-se pois em si mesma, Eva recusou sacrificar a própria vontade em obediência a Deus e, comendo do fruto proibido, fez entrar no mundo a morte pelo pecado.

No entanto, a fim de confundir o demônio e remediar a Queda de nossos primeiros pais, o Deus de misericórdias providenciou que, do mesmo modo como pela desobediência de uma mulher a morte entrou no mundo, assim também a vida nele voltasse a reinar pela obediência de outra mulher. E é o que se vê em Maria Santíssima: nela temos o madeiro salvífico — a cruz — a cujos pés permanece, o fruto bendito — Cristo —, o qual é oferecido ao Pai como hóstia pura e imaculada — e, enfim, uma perfeita submissão à vontade divina. 

Escrava humilde do Senhor, Maria recebe do Pai o fruto da salvação e, sem querer retê-lO para si, como nova e obediente Eva Lho "devolve" e oferece com um sacrifício perfeitíssimo de fé e confiança nas promessas que da parte dEle lhe foram feitas. Devido, pois, a esta sua união estreitíssima com o holocausto que Cristo faz de si ao Pai, a Santíssima Virgem pode com justiça ser chamada nossa corredentora. Peçamos-lhe hoje que nos alcance de seu Filho uma fé ainda mais viva e nos dê forças para, a seu exemplo, permanecermos de pé ao lado da cruz de Jesus e de suportarmos com alegria os calvários de cada dia.



Espelho completo e corrigido do link com os textos, áudio transcritos, bibliografias e referências:
https://padrepauloricardo.org/episodios/memoria-de-nossa-senhora-das-dores