02/09/2016

4. Por que preciso batizar o meu filho quando criança?

Vamos então responder às perguntas dos nossos internautas. Dessa vez a pergunta que nós escolhemos é da Irani. Irani é catequista e a pergunta que ela faz é a seguinte: "eu tenho de um pai e uma mãe que não querem batizar seu filho pequeno e o argumento que eles usam é que Jesus foi batizado quando adulto”. A mãe quer saber: "existe resposta na Bíblia pra isso?” Eu não consegui encontrar. Você pode me ajudar, padre Paulo?"
A primeira coisa que eu gostaria de ensinar pra vocês. Muito cuidado quando você aceita uma pergunta, porque quando você aceita uma pergunta o seu adversário já está arrastando você pro campo dele. Ou seja, essa pergunta é uma pergunta protestante?
Quando a pessoa pergunta onde está na Bíblia que eu devo batizar o filho quando ele é pequeno, de repente, se você aceita essa pergunta você sem querer já foi pro terreno do adversário e agora você tá lá, no campo de batalha, sozinho, cercado de guerreiros inimigos e você vai apanhar. Por quê? Porque a pergunta já está errada.
A pergunta diz onde é que está na Bíblia. Porque a intenção que está por trás da pergunta é a seguinte: tudo tem que estar na Bíblia. Mas quem foi que disse que tudo tem que estar na Bíblia? Nós católicos não cremos nisso, nós católicos cremos, veja só, que a Bíblia é muito importante, a Bíblia é a Palavra de Deus, ela precisa ser estudada e eu tenho um apreço enorme pela palavra de Deus e pela Bíblia. Quem acha que eu não amo as Sagradas Escrituras é porque simplesmente não me conhece. Fulano chega e diz: "ah, o padre Paulo acha que a Bíblia não tem valor, que os padres não devem estudar a Bíblia". Mas pera lá, meu irmão, para com esse negócio. Me diga como é que eu acho que padre não deve estudar a Bíblia e, ao mesmo tempo, eu sou professor no Instituto de Teologia de Cuiabá, eu sou professor de grego e hebraico bíblicos. Como é possível isso? Só se eu fosse esquizofrênico, maluco. Eu não posso ser professor de grego e hebraico, da Bíblia de línguas antigas e dizer que padre não precisa estudar bíblia.
Agora, uma coisa é dizer que a Bíblia é valiosa, como a exortação apostólica do Papa Bento 16, a Verbum Domini, dom precioso para a Igreja de Deus. Muito bem, uma coisa é dizer que a Bíblia é importantíssima. Outra coisa é nós acharmos que a Bíblia é uma caixinha de resposta que tem que ter resposta para tudo, porque não é assim.
Então, em primeiro lugar, a Igreja já batizava as crianças antes que o cânon do Novo Testamento estivesse estabelecido. Deixa eu explicar essa frase. Você sabe que existem 27 livros no Novo Testamento. Esses 27 livros são idênticos com o dos protestantes. Começa com Matheus, termina com Apocalipse. Estamos de acordo, não tem briga nenhuma sobre os 27 livros do Novo Testamento. Esses 27 livros do Novo Testamento que estão lá, eles não foram escritos juntos, encadernados, editados, publicados e vendidos ao mesmo tempo.
A Igreja, durante dois séculos, viveu num momento de decisão. Para, inspirada por Deus, porque Deus inspirou os 27 livros do Novo Testamento. Deus inspirava, enquanto aqueles apóstolos falavam mas de nada adiantaria Deus inspirar os apóstolos que falam através dos livros se Deus não inspirasse a Igreja que ouve aqueles livros. Deus inspira quem fala e Deus inspira quem ouve.
Então Deus inspirou também os nossos bispos. Inspirou também os Papas para discernir quais daqueles livros eram falsos. Os livros falsos são chamados de apócrifos, a gente deixa lá na biblioteca, pois é documento histórico, mas não é Palavra de Deus. Enquanto os livros inspirados por Deus são palavra de Deus, e são os 27 livros do Novo Testamento. Como que nós temos esses 27 livros, nós temos porque nós cremos na Igreja. É difícil você crer na Bíblia se você não crê antes na Igreja. Vejam o nosso credo, a gente diz: "Creio em Deus Pai, todo poderoso". Credo que você que é catequista ensina. Não existe em lugar nenhum creio na Bíblia, já viu isso? Por quê? Porque está escrito lá: Creio na Igreja. Você crê na Igreja, como diz o teólogo Karl Rahnner, acho que os grandes teólogos liberais e moderninhos hoje, todo mundo aceita e aplaude Rhanner, muito bem, então vamos citar alguém respeitado por eles. Rhanner diz o seguinte: Deus é autor da Bíblia porque Deus é autor da Igreja. Nisso ele tem razão. Ou seja, Deus fez uma Igreja.
Agora esta Igreja foi o instrumento que Deus usou para escrever a Bíblia. Muito bem, então a pergunta não é onde está na Bíblia que eu posso batizar crianças, mas a pergunta é: a Igreja que Jesus deixou nesse mundo batiza crianças desde sempre?" Essa é a Tradição da Igreja? E com que fundamento a Igreja batiza as crianças desde sempre? E entre os vários fundamentos, existe também um fundamento bíblico? Aí sim nós estamos num ambiente católico, aí a pergunta mudou de qualidade, aí nós estamos do lado de cá, nós não estamos aceitando os pressupostos protestantes, porque o problema é esse, toda vez que você aceita pergunta protestante você aceitou um pressuposto férreo deles, que é a chamada Sola Scriptura de Lutero. E esse pressuposto para nós católicos é impossível.
Não é somente a escritura que prova as coisas, mas a fé da Igreja. A Igreja que guarda esse tesouro da sua fé no depósito da fé que está na Sagrada Tradição e nas Sagradas Escrituras. Eis aí aquilo que é a nossa fé. Agora respondendo bem especificamente à sua pergunta, nós podemos dizer o seguinte: já no Novo Testamento existem alguns indícios e alguns sinais de que talvez algumas crianças pudessem ter sido batizadas. Quando, por exemplo, São Paulo, nos Atos dos Apóstolos, é libertado, ele foi aprisionado em Filipos, um terremoto durante a noite o liberta, ele e Silas saem da prisão, então o carcereiro achou que os prisioneiros tinham fugido, ele vai lá e quer cometer suicídio. São Paulo diz: "pare". E ele pergunta: "o que devo fazer?" São Paulo prega o Evangelho, ele crê e é batizado ele e toda sua família. Pode-se pressupor que toda sua família tivesse também crianças, mas isso é só uma pressuposição. Mas veja que a conversão do carcereiro e toda sua família indica um princípio muito importante e interessante da sociedade antiga.
Quando o “pater familias”, o pai da família, se convertia geralmente a família inteira se convertia. E aqui então nós vemos atestado na Bíblia uma prática da Igreja, ou seja, havia dois tipos de conversões naquela época, as conversões de pessoas individuais e as conversões de famílias inteiras. Ora, uma vez que uma família inteira se converteu, aí nós temos então o pressuposto para aquilo que nós temos hoje, que é, famílias católicas terminam com filhos católicos, batizando seus filhos desde cedo. E por que é que não havia tantos batismos de criança no início do cristianismo? Por uma razão muito simples: não haviam famílias católicas! Para você ter batismo de criança você tem que ter a família católica.
Daqui nós temos também uma outra realidade que é o seguinte: a Igreja acolhe estas crianças e batiza essas crianças na fé da Igreja. Por isso que a Igreja também instituiu o ministério do padrinho e da madrinha. Por quê? Porque teoricamente, sei que isso depois na prática, infelizmente, não acontece. Mas, teoricamente, se o pai e a mãe da criança não quisessem educar a criança na fé católica, a Igreja se dispõe a indicar um padrinho ou madrinha que serão responsáveis pela educação católica daquela criança. Isso é tão verdade que o Código do Direito Canônico hoje, nos diz que se você quiser batizar uma criança, mas o pai e a mãe simplesmente não tiverem fé católica, mas só consentirem, você pode batizar se houver esperança de que essa criança seja educada na fé católica.
Então, por que é que Jesus foi batizado adulto? Bom, aqui nós estamos diante de outro problema. O batismo de Jesus não é igual ao nosso batismo. O batismo de Jesus foi ao mesmo tempo mais do que o nosso batismo e, menos do que o nosso batismo. Ele foi menos do que o nosso batismo, porque aquilo era o batismo de João, um batismo que era só para penitência, para conversão, mas não tornava as pessoas filhos de Deus, por isso, o batismo de João era menos do que o nosso. E o batismo de João foi mais do que o nosso. Por que ali Jesus recebeu uma unção especial, uma efusão do Espírito Santo, que foi derramada sobre ele de uma forma extraordinária, muito maior do que a unção que nós recebemos. Então o batismo de Jesus é algo muito especial.
Jesus não é o parâmetro para isso. O que nós precisamos olhar é a práxis da Igreja. Jesus disse que não abandonaria sua Igreja. "Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos". Então Ele não vai nos abandonar! Ele está com a sua Igreja. E é a Igreja que pratica a mesma coisa há dois mil anos. Das duas uma: ou ela errou numa matéria muito grave como é o batismo e Jesus a abandonou ou então ela é a Igreja verdadeira e continua fazendo aquilo que Jesus quer que ela faça. Como Jesus é fiel a si mesmo e ele não pode se trair, eu acho que Ele não abandonou a Igreja. Não somente acho, tenho certeza. Por isso, vamos seguir aquele versículo do Evangelho, onde o próprio Jesus diz: "deixai vir a mim as criancinhas". Que o batismo das nossas crianças seja isso, nós temos convicção e fé católica que quando batizamos uma criança, nós estamos arrancando essa criança das mãos da escravidão, do pecado e de Satanás. Entregando nas mãos de Deus e fazendo dela um filho de Deus, uma filha de Deus. Alguém que antes era só criatura escravizada pelo pecado original agora se torna filho de Deus.
Se você tem consciência da condição terrível que é não ser batizado, você então tem pressa de batizar. Os protestantes, na verdade, não têm pressa de batizar. Por quê? Porque pra eles o batismo é uma coisa simbólica, uma tomada de consciência, o batismo não faz nada. Mas nós, católicos, não cremos nisso. Nós católicos cremos que o batismo é realmente uma intervenção de Deus que arranca aquela criatura da escravidão de Satanás e do pecado e a transforma em filho de Deus, que antes ela não era. Abre a porta dos céus, da graça para viver uma vida melhor. Se você crê nisso, você vai ter pressa de batizar seus filhos, se você acha que o batismo é só uma cerimônia, ocasião para uma festinha, então é verdade, pode esperar, pode esperar quanto quiser. Mas isso, certamente, não é a fé católica.

Texto acima transcrito do vídeo.


Texto no site:


A morte, a miséria, a opressão e a inclinação que todos os homens têm para o mal estão fora da compreensão humana, a não ser que sejam lidos como consequências do pecado de Adão (original). Elas são transmitidas a todos os homens sem distinção. Por causa dessa "certeza da fé, a Igreja ministra o batismo para a remissão dos pecados mesmo às crianças que não cometeram pecado pessoal." (CIC 403). A fim de clarear ainda mais o tema, não deixando margem para qualquer dúvida, o Catecismo continua ensinando:


Por nascerem com uma natureza humana decaída e manchada pelo pecado original, também as crianças precisam do novo nascimento no Batismo, a fim de serem libertadas do poder das trevas e serem transferidas para o domínio da liberdade dos filhos de Deus, para a qual todos os homens são chamados. A gratuidade pura da graça da salvação é particularmente manifesta no Batismo das crianças. A Igreja e os pais privariam então a criança da graça inestimável de tornar-se Filho de Deus se não lhe conferissem o Batismo pouco depois do nascimento. (CIC 1250)
A Igreja Católica não é a religião de um livro, mas de uma Pessoa real, concreta: Jesus Cristo, o qual permanece vivo ao longo destes dois mil anos em sua Igreja, que é embasada também na Tradição e no Magistério. Desta forma, "a prática de batizar as crianças é uma tradição imemorial da Igreja. É atestada explicitamente desde o século II. Mas é bem possível que desde o início da pregação apostólica, quando ‘casas’ inteiras receberam o Batismo, também se tenha batizado as crianças" (CIC 1252), é o que continua ensinando o Catecismo da Igreja Católica.
O Batismo é o sacramento da iniciação cristã. Em 20 de outubro de 1980, o Papa João Paulo II publicou a Instrução da Congregação da Doutrina da Fé Pastoralis Actio, justamente sobre o batismo de crianças. Eis:


As palavras... faladas por Jesus a Nicodemos, a Igreja sempre as entendeu assim: ‘as crianças não devem ser privadas do batismo’. Essas palavras têm, com efeito, uma forma tão geral e absoluta que os Padres as retiveram para estabelecer as necessidades do batismo, e o Magistério as aplicou expressamente ao batismo das crianças: também para elas , este sacramento é a entrada no povo de Deus e a porta da salvação pessoal.
Por isso, mediante sua doutrina e práxis, a Igreja mostrou que não conhece outro meio senão o batismo para assegurar às crianças a entrada na eterna bem-aventurança...
Que as crianças ainda não podem pessoalmente professar sua fé não impede que a Igreja lhes confira este sacramento, porque é na própria fé da Igreja que ela as batiza.
Muito importa lembrar, antes de tudo que o batismo das crianças deve ser considerado uma incumbência grave. As perguntas que dela surgem para os pastores podem ser resolvidas somente com uma atenção fiel à doutrina e à prática constante da Igreja.
Concretamente, a pastoral do batismo das crianças deverá inspirar-se em dois grandes princípios:
1- O batismo, necessário para a salvação, é sinal e instrumento do amor da parte de Deus, que nos liberta do pecado original e comunica a participação na vida divina: por si, o dom destes bens às crianças não deve ser adiado.
2- É preciso providenciar garantias para que este dom possa desenvolver-se mediante uma verdadeira educação da fé e da vida cristã, de modo que o sacramento alcance sua ‘verdade’ total. Estas garantias normalmente são proporcionadas pelos pais ou por parentes, ainda que sejam possíveis diversos modos de supri-las na comunidade cristã. Mas se estas garantias não são sérias, poderá haver uma razão para adiar o sacramento; se as garantias são certamente nulas, recuse-se o sacramento." (DH 4670-4674)
Os sacramentos são "sinais sensíveis (palavras e ações), acessíveis à humanidade atual". Eles "realizam eficazmente a graça que significam em virtude da ação de Cristo e pelo poder do Espírito Santo" (CIC 1084). Ora, o batismo é um sacramento e como tal, imprime um caráter indelével, uma marca em quem o recebe. O Código de Direito Canônico em uníssono com a Igreja, o define como:


Cân. 849: O batismo, porta dos sacramentos, necessário na realidade ou ao menos em desejo para a salvação, e pelo qual os homens se libertam do pecado, se regeneram tornando-se filhos de Deus e se incorporam à Igreja, configurados com Cristo mediante caráter indelével, só se administra validamente através da ablução com água verdadeira, usando-se a devida fórmula das palavras.
Cân. 851: A celebração do batismo deve ser devidamente preparada:
2° - os pais da criança a ser batizada, e também os que vão assumir o encargo de padrinhos, sejam convenientemente instruídos sobre o significado desse sacramento e as obrigações dele decorrentes; o pároco, por si ou por outros, cuide que os pais sejam devidamente instruídos por meio de exortações pastorais, e também mediante a oração comunitária reunindo mais famílias e, quando possível, visitando-as."
Deste modo, a Igreja, que é mãe e mestra da verdade, entende a importância do sacramento do Batismo para a salvação da pessoa e procura garantir os meios necessários para que ele aconteça efetivamente, mesmo que ainda não se entenda a profundidade do que está ocorrendo, o que se dará numa etapa posterior, com a catequese.
Aqueles que não foram batizados, ainda que sejam bebês, encontram-se sob o poder do Inimigo e fora da graça de Deus. A Igreja não poderia deixar de oferecer e ministrar o remédio - o Batismo - a eles garantindo que possam ser contados entre o número dos filhos de Deus.
Os protestantes sempre querem saber onde está a determinação do Batismo das crianças na Bíblia, para eles, o batismo é apenas um símbolo, não muda nada e não arranca a pessoa das garras de Satanás. Para os católicos, porém, o batismo é a porta da salvação, como diz o Código de Direito Canônico, por isso é tratado com a máxima gravidade.
Os pais católicos que entendem a dimensão e a profundidade desse ato cuidam para que seus filhos o recebam o quanto antes. Já para aqueles que acham que é somente mais uma ocasião de festa, esses podem esperar. Mas este, certamente, não é o entendimento católico.


Espelho completo e corrigido do link com os textos, áudio transcritos, bibliografias e referências:
https://padrepauloricardo.org/episodios/por-que-preciso-batizar-o-meu-filho-quando-crianca