04/10/2016

O purgatório é uma invenção medieval? - RC223

O purgatório é uma invenção medieval? Essa pergunta é necessária, porque infelizmente tem se ouvido cada vez mais, na boca de pregadores católicos e até professores de teologia, esse tipo de afirmação que é, na verdade, absurda. Porque o purgatório é um dogma de fé, onde ficou estabelecido por dois concílios ecumênicos, concílio de florença e o concílio de Trento, e que portanto não pode ser questionado.

Isso você pode encontrar com toda clareza no catecismo da Igreja Católica, a partir do número 1030. Ali se estabelece qual é a fé da Igreja, agora vamos responder ao problema histórico, o purgatório é uma invenção medieval? Definitivamente não. Porque quando nós temos um dogma de fé, o dogma de fé só pode ser dogma de fé, se ele estiver na fé dos apóstolos. A pergunta básica que as pessoas fazem é, onde está escrito na Bíblia que o purgatório?

Resposta. Quem falou que tem que estar escrito na Bíblia? Que bobagem é essa, que absurdo! Nós para crermos em algo, não precisamos crer porque está na Bíblia, precisamos crer porque está na fé dos apóstolos. E porque está na fé dos apóstolos, que eu devo crer na Bíblia. Pois bem, a fé dos apóstolos, nos diz, desde o início da Igreja, que a Igreja, reza pelas pessoas falecidas, isto é um fato claríssimo, atestado universalmente em 2000 anos de cristianismo e não somente, em todos os lugares. Isso é um critério muito evidente de fé apostólica, "quod semper quod ubique quod ab omnibus", aquilo que foi crido sempre, aquilo que foi crido em todos os lugares, e aquilo que foi crido por todos os Santos doutores, é evidente que isto é a fé da Igreja, isso não é uma moda passageira.

Então peguemos lá, por exemplo nas catacumbas cristãs, quantas e quantas inscrições rezando pelas pessoas falecidas, reze por fulano, dai-lhe Senhor o refrigério. Santo Tomás de Aquino, grande teólogo, prova as coisas com o seguinte raciocínio que é muito simples. Nós sabemos que é inútil rezar pelas pessoas que estão no Céu e sabemos também que é inútil rezar pelas pessoas que estão no inferno. Porque tanto uma como a outra, já estão no seu destino definitivo, então se a Igreja, na sua praxe, unânime, universal, de sempre, a sua praxe católica, rezou pelos mortos, é porque, existe ainda, depois da morte, um tempo, um período em que a pessoa já salva, ainda não está pronta para contemplar a Deus face a face.

Agora, isto, que está atestado, na praxe da Igreja e até citado no magistério, através do ensinamento constante dos Papas e dos Bispos espalhados pelo mundo inteiro em dois concelhos ecumênicos, inclusive no concílio vaticano 2º, isso aí também estaria na Bíblia? Bom, na bíblia, nós podemos encontrar a atestação daquilo que é o costume de rezar pelos mortos, o segundo livro de Macabeus, capítulo 12, versículo 46. É evidente que os protestantes e não aceitam isso porque o livro de Macabeus não está na bíblia deles. Mas se nós formos ver historicamente, nós iremos ver que na verdade, as coisas foram ao contrário, ou seja, por que Lutero não queria aceitar o purgatório, ele então rejeitou o livro de Macabeus.

Então, na realidade, se nós formos ver a verdade histórica das coisas, nós iremos compreender que o problema da existência do purgatório, está numa visão protestante daquilo que é a santidade. Para os protestantes não existe Santo, não existe santidade humana, eles ficam irritados quando a gente diz, São fulano, São beltrano, porque somos todos profundamente pecadores e nós iremos entrar no Céu ainda profundamente pecadores, só que Deus não irá olhar o nosso pecado, não irá imputar o nosso pecado, Ele irá olhar somente a nossa fé.

Por isso o protestante "sacramentou" teologicamente, aquilo que era a dificuldade psicológica e psiquiátrica de Martinho Lutero, ou seja, um homem atormentado pelos seus escrúpulos, não conseguia viver a santidade, no entanto, nós não temos só Martim Lutero na história da Igreja, assim como nós não temos somente Judas no colégio apostólico. Nós temos uma longa, uma longa tradição de Santos e numerosíssimos Santos, que, embora convertidos, embora sem cometer pecados mortais, embora virtuosos, continuavam a fazer penitência aqui na terra, sabiam que precisavam se purificar.

Esta praxe da Igreja atestada ao longo dos séculos, nos diz isto, que mesmo depois de perdoados os nossos pecados, ainda existe dentro de nós aquilo que se chama "reliquie peccati", ou seja, os restos do pecado, os resquícios que ficam em nós, dos pecados cometidos. E você, não precisa acreditar em mim, não precisa acreditar no dogma da Igreja, basta você acreditar em você, olhe bem para dentro de você, depois que você foi perdoado dos seus pecados na confissão, você vê claramente que ainda existe dentro de você, uma tendência para o pecado, uma desordem para o pecado. É esta desordem que não pode entrar no Céu.

Isso deve ser modificado, isso deve ser purificado, por isso existe sim, de fato, o purgatório. Trata-se de uma lógica dentro da realidade da visão de santidade da Igreja de dois mil anos. Nós cremos que a santidade é possível, quando nós olhamos para o Santos e vemos que superaram essas tendências e essas desordens, e nós olhamos para nós mesmos e vemos dentro de nós, essas tendências e essas desordens. Portanto, não se trata aqui de perdoar os pecados mortais, os pecados já perdoados, ainda assim nos dão trabalho, para que nós nos purifiquemos.

Então, trata-se de uma questão lógica, se não fosse somente uma questão de que está presente na tradição, unânime, inconteste, perene da Igreja, que está no magistério e existem indícios claríssimos nas sagradas escrituras, se não bastasse isso, então basta-nos também a lógica. Então é evidente que, historicamente, a reflexão teológica a respeito do purgatório se desenvolveu plenamente na Idade Média, mas não quer dizer que o purgatório foi inventado na Idade Média. A reflexão que foi realizada na Idade Média.

Eu, sou eu, desde que eu nasci, embora, agora, só depois de tantos anos de vida, foi que eu comecei a fazer uma certa reflexão a respeito de coisas que estão dentro de mim, e me dou conta de quem eu sou, e já sou a tanto tempo, mas vou conhecendo o que eu sou. Assim também a Igreja, a Igreja tinha a sua praxe, o seu comportamento, de rezar pelas almas do purgatório. Quando os teólogos se perguntam, porque é que nós fazemos isso, então encontra-se a explicação teológica, que floresceu na Idade Média.

É por isso que se cria esta mentira dizendo que o purgatório foi inventado na Idade Média. Porque só aparece a palavra purgatório na Idade Média. Mas não é necessário que haja uma palavra, para que exista a realidade. Exemplo: O seu filho já existia, antes de você dar nome para ele.


Texto acima: Transcrição do vídeo.


Texto do site abaixo:


Desde quando os católicos rezam pelas almas do purgatório? Essa realidade é uma mera invenção da Idade Média ou faz parte da fé recebida dos apóstolos?

Assista a este episódio de "A Resposta Católica" e descubra, além disso, por que os protestantes não crêem no purgatório.

O purgatório é uma invenção da Idade Média? Infelizmente, muitos pregadores católicos e professores de teologia têm repetido essa afirmação absurda, ignorando que o purgatório é um dogma - estabelecido pelos Concílios Ecumênicos de Florença e de Trento [1] - e que, portanto, está enraizado na própria fé dos apóstolos. Se é verdade que a existência do purgatório não está explicitamente consignada na Bíblia, é preciso recordar que esta não é a única fonte de fé da Igreja. Não é necessário, portanto, que todos os dogmas estejam claramente nas Escrituras, mas sim na fé apostólica, que é o fundamento da própria Bíblia.

De fato, de muito cedo vem o costume de rezar pelos falecidos. Atesta-o o Segundo Livro dos Macabeus, que indica como os judeus piedosamente suplicavam por seus entes queridos [2]. Atestam-no as catacumbas dos primeiros cristãos, cheias de inscrições com orações pelas almas dos mortos. Atesta-o, enfim, o testemunho de todos os fiéis, de todos os séculos e de todos os lugares (quod semper, quod ubique, quod ab omnibus). Como afirma Santo Tomás de Aquino, é inútil rezar tanto pelas almas que estão no Céu, tanto pelas que estão no inferno, já que ambas estão em seu destino definitivo. Se a Igreja sempre rezou pelas almas dos mortos, então, é porque sempre creu que, após a morte, nem todas as pessoas salvas estão prontas para contemplar Deus face a face.

Foi Martinho Lutero, no século XVI, quem, não querendo aceitar o purgatório, chegou a rejeitar os próprios Livros dos Macabeus do Cânon das Escrituras. É que o purgatório não cabe na religião protestante, cuja doutrina não aceita a santidade humana. Para eles, todos os homens são profundamente pecadores e irão entrar no Céu ainda profundamente pecadores, com Deus olhando tão somente para a sua fé. Com isso, o protestantismo “sacramentou" teologicamente a dificuldade piscológica de Lutero, um homem que, atormentado por seus escrúpulos, não conseguia viver a santidade.

Na Igreja Católica, porém, existem numerosos exemplos de santos que, mesmo convertidos e livres dos pecados mortais, continuavam a fazer penitência, pois sabiam que precisavam purificar-se dos “resquícios" dos pecados cometidos (reliquie peccati) que ainda ficavam em sua alma. Para detectar isso, basta olhar para dentro de si mesmo e perceber que aí existe uma desordem. O que a Igreja diz - e que é bastante lógico - é que essa desordem não pode entrar no Céu.

O fato de a reflexão teológica a respeito do purgatório se ter desenvolvido plenamente na Idade Média não quer dizer que o purgatório foi inventado nessa época. Se a palavra própria para designar o estado de purificação das almas depois da morte só veio em tempos medievais, isso não significa que só na Idade Média os cristãos começaram a crer nessa realidade. Assim como nós já existíamos, antes mesmos de os nossos pais nos darem um nome.

Referências

  1. Cf. Catecismo da Igreja Católica, 1030; Concílio de Florença, Decr. pro Graecis: DS 1304; Concílio de Trento, Sessão 25ª, Decretum de purgatorio: DS 1820: Sess. 6ª. Decr. de iustificatione, canon 30: DS 1580
  2. Cf. 2 Mc 12, 39-45


-------

Espelho completo e corrigido do link com os textos, áudio transcritos, bibliografias e referências:
https://padrepauloricardo.org/episodios/o-purgatorio-e-uma-invencao-medieval